Cada macaco no seu galho | Artigo de Ney Arruda Filho

Estava preparando uma apresentação para o 47º Colóquio Literário da Alivat. A ideia era abordar a influência do momento histórico e de movimentos culturais na literatura, na poesia e na música. Escolhi realizar uma pequena incursão no movimento cultural denominado Bossa Nova, surgido no final da década de 1950 e início dos anos 1960, passando por alguns dos seus expoentes. Depois, trataria do Tropicalismo, que teve início no final dos anos 1960, início da década de 70. Ambos os movimentos tiveram grande influência na literatura brasileira, na poesia, no conto, na crônica e no romance.

Na procura por uma canção que fosse representativa do momento histórico do Tropicalismo, me deparei com “Cada macaco no seu galho”, gravada por Gilberto Gil e Caetano Veloso no início da década de 70. Ouvi a melodia, pensei na letra. Na época, a crítica comeu solta, pelo tom jocoso da letra. “Não se aborreça, moço da cabeça grande/Você vem não sei de onde/Fica aqui, não vai pra lá/Esse negócio da mãe preta ser leiteira/Já encheu sua mamadeira/Vá mamar noutro lugar!” Mas com o sucesso que fez à época, o título virou jargão e a expressão passou a ser compreendida no sentido de que as pessoas devem reconhecer o seu lugar, sem se intrometer em assuntos alheios, dos quais não lhe compete. Seria o mesmo que dizer: “cuide de sua vida que eu cuido da minha”. Cada macaco no seu galho se consolidou como uma expressão que aconselha, ou rebate, que cada pessoa exerça sua atribuição, sem se meter no que não deve se meter.

A semana começou com a divulgação de conversas via aplicativo de celular, entre membros da força-tarefa da Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro, na época em que ele ainda era juiz. Também foram divulgados diálogos de um grupo formado pelos membros da mesma força-tarefa. Os conteúdos, obtidos de maneira ilegal com o auxílio da tecnologia da informação, deixam claro que, além dos interesses republicanos que devem nortear a atuação dos agentes públicos, estavam os interlocutores atentos às consequências políticas que os processos causariam. Saudada como um divisor de águas na história da República brasileira, por descortinar esquemas de corrupção até então inimagináveis, a Lava Jato sai chamuscada com o que parece ser uma deliberada intenção de influenciar nas escolhas políticas dos cidadãos.

No Estado Democrático de Direito, sistema adotado pela Constituição Federal, temos a prerrogativa de eleger nossos representantes pelo voto secreto, em eleições diretas. Aos agentes públicos de carreira, delegados, promotores e juízes em especial, a lei impõe limites de atuação, que devem obrigatoriamente ser seguidos. Aquele jargão cunhado no Tropicalismo, quando se sonhava com a volta da democracia, segue extremamente atual: cada macaco no seu galho, eu não me canso de falar…

Ney Arruda Filho

Publicado originalmente em Jornal A Hora