Na fila, pela democracia | Artigo de Ney Arruda Filho

A gente é assim mesmo. Vai deixando, deixando e quando vê, tá em cima da hora pra tomar uma providência extremamente importante. Eu disse que achava melhor deixar pra outro dia, por causa da agenda apertada. Ela disse não, que não dava pra empurrar mais, que eu sempre vinha com esse papo de agenda apertada. Nenhum dia seria dia. Então, negociadamente, o argumento dela prevaleceu e o dia chegou. Nesta caso, me refiro ao recadastramento biométrico. Chegamos cedo, eu e Denise, numa dessas manhãs agradáveis de fim de verão. Na fila, muitos conhecidos, pessoas que não víamos há tempos e outros tantos que por ali cruzaram e aproveitaram pra uma resenha. Papo vai, papo vem, acontece aquele inevitável questionamento da utilidade disso tudo. Afinal, a gente vota pra quê? O sistema é seguro? Alguém está faturando com essa tecnologia toda? Não era melhor na época do voto em papel, do escrutínio no ginásio do Sete?

As respostas foram aparecendo, cada um dando a sua opinião. A gente vota porque, após anos de luta pela democracia, reconquistamos o direito de eleger, pelo voto direto e secreto, o Presidente da República e o Governador do Estado. Senadores, deputados federais, deputados estaduais, prefeito e vereadores, estes a gente sempre elegeu pelo voto direto, mesmo durante a ditadura. Todos são eleitos democraticamente, igualzinho ao Presidente da República. Sim, parece que o sistema é seguro, que as possibilidades de fraude são mínimas e que qualquer tentativa de invasão é imediatamente detectada, com o também imediato bloqueio do sistema. Sim, alguém deve estar faturando com essa tecnologia toda, mas isso já faz parte do jogo. E, também sim, quem experimentou trabalhar na apuração dos votos em papel lembra com carinho daqueles momentos, que materializavam a grande festa da democracia. E era realmente uma festa, pra quem trabalhava e principalmente pra quem vencia a eleição. Felicidade de alguns, tristeza de outros, a vida seguia, com respeito e resignação ao resultado das urnas.

Neste ano se vota pra prefeito e pra vereador. E como se deu em 2018, elegeremos democraticamente um chefe para o Poder Executivo e os representantes do Poder Legislativo. E o jogo democrático impõe negociação, habilidade, argumento. Bem parecido com casamento. Para que as coisas andem bem (sei lá o que isso significa!), os representantes eleitos democraticamente terão que negociar, argumentar e por vezes ceder. Assim como o casamento, a democracia representativa não é um sistema perfeito. Mas de tudo o que a genialidade humana inventou até agora, parece ser o sistema mais adequado para enfrentar os desafios de governar um país, um estado, uma cidade. Casar a gente escolhe, mas isso diz respeito só pra gente. Viver em democracia foi a escolha que fizemos em 1988, enquanto nação, com a Constituição Federal. Por isso, agora, não temos escolha. A preservação das instituições democráticas, especialmente de cada um dos Poderes, é dever de todos.

Ney Arruda Filho

Artigo originalmente publicado no Jornal A Hora