Heróis e humanos | Artigo de Ney Arruda Filho

Desde que o mundo é mundo, de tempos em tempos, surgem narrativas épicas relatadas em livros e outros meios de comunicação. Começando pela Bíblia, pode-se ler sobre jornadas que se transformaram em aventuras, que deram origem a personagens heroicos. Jesus, que do mundo comum foi chamado ao desafio supremo de se tornar o filho de Deus, é o maior de todos. Essas histórias desde sempre me encantaram. Talvez seja por isso que eu ainda busque conhecer da vida das pessoas que construíram a nossa história recente. E um fato histórico em especial sempre me causou espanto e curiosidade: a Coluna Prestes. Segundo historiadores, este foi um movimento político-militar ocorrido entre os anos de 1925 e 1927, liderado por Luís Carlos Prestes, militar declaradamente comunista, que se opunha à chamada República Velha. Combateu inicialmente o governo central e concentrador de Artur Bernardes e depois de Washington Luiz, valendo-se de táticas de guerrilha e despistamento para sobreviver às investidas da polícia e do Exército. Foram mais de 25 mil quilômetros trilhados pelos confins do Brasil até seu completo desmantelamento. Seus principais líderes, especialmente Prestes, são lembrados como heróis que lutavam para acabar com a miséria e a injustiça social no Brasil.

Faz algum tempo, ganhei de presente do meu amigo Márcio Pimenta um livro escrito pela jornalista Eliane Brum. Coluna Prestes – O Avesso da Lenda, lançado em 1994 e atualmente esgotado, conta a história através de outros olhares. É o resultado de um profundo trabalho jornalístico, pelo qual Eliane refaz o caminho por onde passou a Coluna, encontrando sobreviventes e pessoas que vivenciaram esse fato histórico. O livro esclarece que os membros da Coluna tinham que se embrenhar em regiões ermas, evitar estradas, para evitar os confrontos com as tropas fiéis ao governo central. É por isso que pouquíssimos pesquisadores e jornalistas se aventuraram a trilhar o caminho, a refazer a jornada. Eliane o fez, visitando pequenos povoados e vilarejos remotos, muitos ainda desprovidos de acessos viários. As narrativas que ela denomina de “a voz do povo do caminho”, relatos de pessoas que não eram nem rebeldes, nem governistas, mas a população que vivia nos povoados e vilarejos por onde a tropa revoltosa passou, revelam uma faceta sombria e violenta. Para muitos daqueles que vivenciaram a passagem da Coluna, ela não era formada por heróis, mas sim, por criminosos.

Meu amigo Márcio Pimenta não apenas me presenteou com o livro que eu tanto desejava. Ele também conseguiu uma dedicatória da autora. Eliane Brum escreveu: “a voz do povo do caminho, ela nos grita, que não existem heróis, só humanos”. Uma referência mais do que oportuna, para nos lembrar que a história muitas vezes se repete.

Ney Arruda Filho

Publicado originalmente em Jornal A Hora