O lugar da fala | Artigo de Ney Arruda Filho

As palavras têm sentidos. Opa, de novo? Sim, mais uma vez me obrigo a escrever sobre o sentido que as palavras têm. Mas prometo não repetir o que já disse, até para não me tornar ainda mais chato. A ideia, agora, é abordar o quão diferentes podem ser as percepções do sentido das palavras, dependendo de quem as profere e, em especial, de onde as profere.

No dia 24 de setembro último, o presidente Jair Bolsonaro cumpriu a tradição e proferiu o discurso de abertura da assembleia geral da Organização das Nações Unidas. E para não perdermos o hábito da polarização, houve quem criticasse e houve quem elogiasse a fala do chefe do Executivo brasileiro. Instalada a polêmica, o amigo Oreno Ardêmio Heineck escreveu artigo neste espaço, intitulado “Um discurso de estadista”. Assim como o discurso do Presidente, o artigo de Ardêmio recebeu elogios de tantos, críticas de outros e a minha proposta aqui é unicamente lançar um olhar sobre “o que” disse Bolsonaro e, especialmente, “onde” disse Bolsonaro. Depois a gente fala sobre “o que” disse o amigo Ardêmio e sobre o sentido do que ele disse.

Pois bem, nosso presidente foi até a ONU, na qualidade de chefe de Estado. Este é, portanto, o “lugar da fala”. Nesse lugar, como se sabe, a plateia é composta por outros chefes de Estado e por delegações dos países que integram a organização. Indo direto ao ponto, o conteúdo do previsível discurso tratou de pertinentes questões: a Amazônia, as queimadas, a demarcação de terras indígenas e a soberania. Mas também tratou de criticar os governos anteriores, inclusive governos estrangeiros, e chegou a usar a expressão “os petistas”, sem talvez se dar conta de que boa parte da plateia não sabe o que isso significa.

O amigo Ardêmio, no seu artigo, enaltece o estilo de Bolsonaro, qualificando-o como firme e realista, “um estadista”, lançando-se na defesa do presidente e criticando a imprensa por estar sendo tendenciosa. Afirma que, dos presidentes que viu assumir, “nenhum foi combatido assim” pelo “quarto poder” e confessou “desligar o televisor na hora do Jornal Nacional”.

Dito isso (e tenho que dizer), o discurso de Bolsonaro na ONU agradou aos seus eleitores e apoiadores. O Presidente foi perfeito, falou o que o seu povo queria ouvir, tratando mais de questões internas do que de questões de interesse mundial. O questionável está justamente aí, no “lugar da fala”: Bolsonaro não estava num palanque ou na inauguração de alguma obra pública. Ele estava numa assembleia de nações soberanas.

Voltando, então, ao sentido das palavras, pode-se elogiar o discurso do Presidente, mas não se pode dizer que foi um “discurso de estadista”. Aí a minha discordância de opinião. É que as palavras têm sentido e a palavra estadista, segundo Houaiss, denota uma “pessoa versada nos princípios e na arte de governar, ativamente envolvida em conduzir os negócios de um governo”. Bolsonaro agradou ao seu povo, mas deixou muito a desejar para aqueles que esperavam que ele assumisse algum protagonismo perante as nações estrangeiras.

Ney Arruda Filho

Publicado originalmente em Jornal A Hora