O poder das aspas | Artigo de Ney Arruda Filho

As palavras têm sentidos. Os sentidos das palavras são realçados no contexto em que elas são proferidas. Por isso, ao ler o título deste artigo, alguns mais afeiçoados com o reino animal lembrarão de bois, vacas ou de grandes cervídeos, tais como os veados, os alces, as
renas. Eles têm aspas, também chamadas de chifres ou cornos, que são estruturas naturais, apêndices cranianos que caracterizam cada espécie. Essas estruturas, como se sabe, têm a função de adorno, de defesa e de ataque. As aspas, no caso do reino animal, denotam poder
e autoridade.

Transportando a palavra para o reino dos humanos, as aspas, consideradas no sentido literal de chifres ou de cornos, têm uma conotação pejorativa. Como é sabido, trata-se de uma figura de linguagem, uma gíria, que designa a “ornamentação supracefálica” conferida a alguém pelo seu companheiro: o corno ou o chifre designa a pessoa que foi traída, no sentido sexual de traição. O tema acaba sendo um dos preferidos dos fofoqueiros de plantão, pois desde que o mundo é mundo as intimidades alheias e os segredos de alcova atraem muitos interesses. Lamentável ou não, sempre se comentou e sempre se comentará alguma situação picante envolvendo o chifre e não me refiro a chifre do veado. As aspas, no caso do reino dos humanos, não denotam poder ou autoridade, mas a perda dele, quando percebidas num viés machista.

Mas as aspas também têm outra conotação, a linguística, muito mais poderosa e relevante no contexto atual. As aspas, tidas como sinais de pontuação, são usadas para fazer citações no texto, para destacar palavras pouco usadas ou em idioma estrangeiro. Mais importante ainda é a utilização das aspas para mostrar que uma palavra está sendo usada em sentido diferente do habitual. Insisto que se trata da mais importante forma de utilização do sinal, porque a profusão de mídias hoje existentes, em especial as mídias eletrônicas, nos empurram para a quantidade, não para a qualidade. A infinidade de informações e notícias que chegam pelo celular a cada instante, nos obrigam a uma leitura rápida, superficial. Cada vez menos conseguimos aprofundar no texto, buscando abstrair um sentido mais amplo e relevante. Cada vez menos nos damos ao trabalho de ler “com olhos de ver”, para enxergar além do que está escrito.

As aspas, no texto, não se prestam para defesa ou para ataque, seja lá de quem for. As aspas, no texto, não servem para ofender ou para fazer referência a uma triste circunstância da miséria humana. As aspas, no texto, servem para provocar o leitor a ler além do que está escrito, a buscar novos sentidos, além do literal.

Ney Arruda Filho

Publicado originalmente em Jornal A Hora